Juan Pablo Arévalo
Foto periodista
Juan Pablo participou da Residência Fotográfica em fevereiro de 2026. Jornalista e fotógrafo, ele compartilha conosco sua visão de uma das festividades mais características dos Andes peruanos, a festa da Cruz Andina.
No alto da Cordilheira Branca peruana, ainda existe uma festa que remonta a antes da chegada dos espanhóis e que oferece um olhar íntimo sobre uma cultura que resiste intacta à passagem do tempo.
Quando os espanhóis chegaram aos Andes peruanos, na época da conquista, ficaram surpresos com o que encontraram. Um império inca altamente organizado e complexo, que cobria grande parte do continente, uma sofisticada arquitetura em pedra e, talvez o mais desconcertante para eles, uma espiritualidade que considerava a natureza e seus elementos como sagrados. Ali se veneravam montanhas, rios e pedras (as huancas, pedras sagradas), e por meio de rituais pedia-se proteção e boas colheitas. Assim foi até que os colonizadores foram aos poucos substituindo a huanca pela cruz cristã como novo símbolo de reverência: onde antes havia huancas, depois se ergueram cruzes.
Hoje em dia, depois de séculos de sincretismo, a cruz manteve seu lugar como objeto de veneração. O objeto mudou, mas os rituais continuam os mesmos. E há localidades no Peru andino que, uma vez por ano, decidem homenagear esse símbolo cristão. Em plena Cordilheira Branca, em Chavín de Huántar e Huaraz, no Departamento de Áncash, comunidades inteiras se reúnem para celebrar a tradicional Festa da Cruz Andina, uma festividade que acontece há séculos e que permite espiar uma cultura que parece ter parado no tempo. São quatro dias em que se venera a cruz cristã, que nessas zonas dos Andes representa também proteção, fertilidade da terra e vínculo com as montanhas sagradas. Dias de festa que combinam misticismo, danças, música e, acima de tudo, álcool.
A festa se organiza assim há anos. Cada povoado tem suas próprias cruzes, que enfeita com flores, tecidos bordados e oferendas. Uma vez prontas, elas começam a chegar de diferentes cantos da serra até a praça e a igreja principal, onde o padre celebra uma missa para abençoar cada uma delas. Depois começa um percurso por toda a cidade, passando por casas, comércios e até pelo cemitério, onde a festa continua. As procissões podem durar várias horas, e cada descanso no caminho é motivo para seguir com a música, o álcool e a dança. Por fim, as cruzes são levadas até o topo do morro e instaladas lá no alto para que protejam o povo, até serem substituídas no ano seguinte.
Cada edição da Festa da Cruz Andina é organizada e financiada por uma pessoa ou por um grupo familiar, conhecidos como mayordomos. São eles os encarregados de cobrir os gastos da celebração, contratar as bandas de música e preparar a comida e a bebida de todos os participantes. Ser mayordomo coloca a pessoa em um lugar de prestígio social e, às vezes, é assumido como promessa ou devoção. O anfitrião deste ano, no povoado de Macashca, é um jovem de menos de 20 anos, filho de uma família abastada. Em agradecimento, os vizinhos prendem notas de dinheiro em sua roupa, e ele agradece com timidez. Dão-lhe tecidos, roupas e muita cerveja, que acabará sendo bebida nesse mesmo dia, em meio às danças. Ele vai embora cedo, mas a festa durará até a madrugada do dia seguinte.
Mas o último dia de festa é o mais impactante. É a “terça-feira de guerra” em Huaraz. Se nos dias anteriores as pessoas jogavam água e farinha umas nas outras, aqui se acrescentam óleo, terra e muita tinta. Os comércios fecham e se cobrem de plástico, a polícia bloqueia as ruas e se desata uma verdadeira batalha campal em todos os cantos da cidade, onde tudo é permitido, exceto sujar os avós ou as cholitas, que passeiam imaculadas em meio ao caos. Os estrangeiros (ou gringos, como chamam todos) são os que correm maior perigo.
A festa se coroa com uma grande “yunza” à noite: o corte de uma árvore cheia de oferendas para celebrar a fertilidade e a abundância. A árvore representa simbolicamente a vida, a natureza e a fertilidade da terra. Ao cair e distribuir seus frutos simbólicos (os presentes), celebra-se a abundância que a comunidade espera receber.
A Festa das Cruzes termina e voltam a paz, o silêncio e a tranquilidade à região. Povoados que, a mais de 3.400 metros de altitude, mantêm suas tradições, seu idioma e seus costumes, trabalhando a terra e o gado, e que surpreendem pela beleza de sua simplicidade. Esta viagem fez parte de uma residência de fotografia documental organizada pela Puttutu Expediciones, que contou com o premiado fotógrafo chileno Tomás Munita como tutor. Uma região que vale a pena percorrer e uma cultura que serve de testemunho vivo dos mais remotos tempos da civilização na América.
Mais do que as cruzes
Chavín de Huántar, embora desconhecido no roteiro turístico, possui um tesouro arqueológico que sobreviveu a mais de três mil anos. Pertencente à cultura Chavín, o Sítio Arqueológico de Chavín foi um enigmático e poderoso santuário religioso aonde as pessoas chegavam, em longas peregrinações, em busca de uma transformação espiritual. Sua rede de galerias subterrâneas conferia ao lugar um poder acústico que, combinado com música, fumaça e plantas, se encarregava da cura (transformação por meio do conhecimento) do espírito.
Em 1985 foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o terceiro do país depois de Machu Picchu e da cidade de Cusco. No seu interior, em uma galeria subterrânea, há um monólito de 4,5 metros de altura chamado Lanzón, que representa uma divindade híbrida, mistura de humano e animal (três animais: o felino, a serpente e uma ave, que encarnam os três mundos e a transformação).
As residências de fotografia documental acontecem duas vezes por ano, em fevereiro e setembro, organizadas pela Puttutu Expediciones.
